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domingo, 3 de maio de 2020

Cabeça no Ar

Um poema de Manuel António Pina


Um cabeça-no-ar pode ser alguém que vive permanentemente distraído. E estar permanentemente distraído, não é coisa boa. Mas estar apenas de vez em quando, pode ser divertido — distrair, entre outros significados, significa divertir, diz o dicionário.

«As melhores coisas são feitas no ar», diz Manuel António Pina. E dá alguns exemplos: «andar nas nuvens, devanear, voar... fazer castelos no ar e ir lá para dentro morar».

Então o desafio, que te faço hoje, é devanear. O que é devanear? Consultando o dicionário, podemos ler:
fantasiar, sonhar;
meditar;
pensar em coisas vãs [sem valor, sem importância];
dizer coisas sem sentido.

Vamos então devanear. Com os olhos fechados [ou abertos, se preferires], enquanto ouvimos o poema, deixemo-nos levar... Sentir, sentir apenas, deixar o pensamento voar... Mas atenção, se escolheres devanear de olhos abertos, põe os olhos a olhar sem ver!, tal como aconselha Manuel António Pina.

Não precisamos de fazer mais nada! Simples, não é?

No fim, se quiseres, e apenas se quiseres, podes falar ou escrever sobre os teus devaneios, sobre as coisas, sem sentido, que pensaste!

terça-feira, 21 de abril de 2020

"Encantamento" e "Palavra Mágica"


Um poema de José Luís Peixoto e outro de Carlos Drummond de Andrade para falar de palavras mágicas, e do que faz uma palavra ser mágica...
Uma palavra mágica pode ser uma palavra que se diz, ou que se esconde num olhar, num gesto...

Montanha, brilho, precipício, são palavras mágicas, porquê? O poema de José Luís Peixoto não diz porquê. Mas também não diz que são. Diz apenas que podem ser [O que faz uma palavra mágica é, talvez, a sua situação]. Só o que acontece depois pode dizer se a palavra é mágica ou não.
- O brilho revela a estrela que, de outra forma, não conseguiríamos ver;
- é preciso subir a montanha ou descer ao precipício para dar conta da sua magia.

«Depois dessa palavra [mágica], só depois dessa palavra, pode acontecer o amor», remata o poema de José L. Peixoto.
- Podemos procurar essa palavra mágica que antecede o amor! - sabemos que pode ser qualquer palavra que se diz [sempre diferente] ou o silêncio que, por ser silêncio é o lugar das palavras que não se dizem; as tais que estão num olhar, num gesto...
- Ou podemos fazer do amor uma palavra mágica.

O amor é, então, palavra mágica! E se é palavra mágica o que é que vem depois dela e só depois dela? E teremos, talvez, outras palavras, que podem ser mágicas também.

Claro que podemos esquecer tudo isto. E ler o poema, apenas. E trazer também a leitura de «A palavra mágica» de Carlos Drummond de Andrade e ver no que dá, o que acontece: Um pretexto, talvez, para falar do amor e da amizade ...

















quarta-feira, 15 de abril de 2020

"O silêncio é uma esteira onde nos podemos deitar"

Excerto de "Uma escuridão Bonita" uma história de Ondjaki

     
    

Este é um daqueles livros que nos convidam a agarrá-lo devagar. Primeiro é a capa a prender-nos o olhar e depois o título: «Uma Escuridão Bonita». A leitura da contracapa segue-se como consequência lógica. Acontece então abrir o livro. E lemos: «O silêncio é uma esteira onde nos podemos deitar». Continuamos a leitura até ao fim da página. As três páginas seguintes, sem texto, com ilustrações apenas, talvez nos ponham em suspenso, expectantes para o que iremos ler a seguir: «Achas que pode caber o quê no coração das pessoas?».

É um daqueles livros que, pela linguagem poética de que é feito, pede leitura em voz alta. É um livro cheio de imagens a saltar da história, para pensar!

Sinopse: «Numa das muitas noites em que falta a luz em Luanda, dois adolescentes ensaiam o seu primeiro beijo, mas este primeiro beijo precisa de muitos ensaios, de muitos momentos de aproximação e afastamento, de certezas e de inseguranças... o ambiente ajuda e o pretexto surge: estão os dois na varanda da avó Dezanove, às escuras, à espera do cinema bu: um cinema que só acontece (na p. 80) quando um carro passa com a velocidade e os faróis certos para projectar sombras/imagens nas paredes brancas das casas da rua escura. O beijo acontece mesmo, mas apenas na p. 101. Esta é uma das mais comoventes histórias do narrador infantil do Ondjaki» [in sitio web da Livraria Almedina].

"O Apocalipse das Cedilhas"

Montagem a partir de excertos de uma história de Luís Leal Miranda


















Uma história, qualquer história, responde a uma pergunta. Muitas vezes, é uma pergunta do tipo: E SE ... ?

E se um governante louco decidisse proibir as cedilhas ? - Esta foi, aparentemente, a pergunta que deu origem a esta história. E a seguir a esta seguem-se outras perguntas, que traçam o seu rumo. Uma delas parece ser: como ficam as palavras que perderam a cedilha ? - Com a resposta a esta pergunta, ficamos a saber que a terça-feira continuou a ser um dia da semana, só que pronunciado de uma maneira diferente [terca-feira ]. Mas o que aconteceu com outras palavras teve 
consequências muito graves: as calças deixaram de ser calças e desataram a calcar toda a gente, e a louça fez-se louca !

Temos, então, um convite: brincar com as palavras, a partir do prolongamento da pergunta: procurar palavras que ficaram esquisitas, quando perderam a cedilha [exemplo: caça/caca; pança/panca ... ].

As perguntas que passam pela cabeça do escritor são essenciais para que ele possa imaginar uma história. Sem perguntas não há como inventar uma história! Mas também há as perguntas que passam pela cabeça do leitor. Umas têm resposta fácil, bastando, para tal, procurá-la na história, descobrir o significado de palavras desconhecidas, que dificultam a compreensão de uma frase... 

Temos, então, um segundo convite: listar as palavras novas, com os seus significados; inventar frases para cada uma delas; encontrar sinónimos que as possam substituir ...  

Outras são perguntas que nos permitem perceber a lógica da história, os seus argumentos - ler é interrogar o texto, ouvimos tantas vezes.

Chegamos, então, ao terceiro convite: fazer perguntas ao texto, sugerindo possíveis respostas [por exemplo, em que é que se poupa proibindo cedilhas?].

Finalmente, com o que descobriste, podes reescrever a história. Ou dar-lhe um final. Ou apenas trocar impressões com os teus colegas e a tua professora ou o teu professor.